quinta-feira, 11 de abril de 2013

A cultura da contra-cultura



"Se quiser escapar ao domínio do previsível, a relação humana - simbolizada ou substituída por mercadorias, sinalizada por logomarcas - precisa assumir formas extremas ou clandestinas, uma vez que o vínculo social se tornou um produto padronizado".  - Nicolas Bourriaud, Estética Relacional

Ao vestir uma roupa que causa desgosto aos olhos da maioria, adotar um gesto que não condiga com as normas de comportamento das mesas de jantar e assumir por completo uma personalidade, cujas vicissitudes externas são apenas formas de expressões de um eu que procura um efetivo retorno e confronto  negativo com o real, eu tenho a convicção de tudo isso seja matéria de assunto sério, pois se trata de protestar os padrões dominantes impostos, geralmente moralistas, totalizantes, estagnados na perspectiva de uma sociedade mais tolerante e solidaria com as diferenças, padrões que esvaziavam o respeito ao indivíduo. Se de um lado, há essa forma negativa da invenção do estilo de vida, existe outro, positivo, que visa dar um passo a mais no sentido oposto da tradição e propor o novo, apontar formas de viver que sejam diferentes, igualmente aceitáveis e que talvez a sua própria incompreensão fosse sua recompensa, e fornecer também um método para novas ações, cujo campo de atuação seja o próprio eu. Ser incompreendido, adotar posturas pouco aceitas, ser rejeitado, e outros defeitos seriam as virtudes do estilo de vida que se adotaria.

A realidade não poderia ser mais decepcionante. Se vaguearmos por certas ruas de São Paulo, é de se notar que muitas comportam gente que não se assemelham com as outras pessoas do mundo. Mas um segundo olhar, mais próximo e acalmado do êxtase do contraste, permite ver que o novo virou velho, que o feio virou moda, o revolucionário virou tradição e que o errado agora tem lugar certo. É fácil ver como a cultura alternativa virou uma forte expressão da sociedade de consumo. Basta lembrar que são grandes marcas de roupa e produtoras de eventos que lhes fornece o substrato da existência. Se um dia a juventude revogou seu direito de se vestir e ser como quiser, agora é a perfeita hora de abrir uma loja de jaquetas de couro e lhes incentivar. O que já foi a revoga por uma afirmação de uma identidade não deturpada pela roupagem, é agora o look massificado, bem elegante por sinal.

Tiro sarro, mas o fenômeno é extremamente preocupante. O gap que aparece entre o ser e o parecer ser livra as pessoas de qualquer dever moral que corresponda ao seu travestimento. Parece, mas não é. Sob os códigos do que se propunha a ser uma nova tomada de atitude quanto ao modo de viver que gritava pela liberdade de ser seja lá o que se quer ser, a vaidade triunfa como nunca. Como uma frase do filme Edukators: ser revolucionário nunca foi tão fácil, camisas do Che Guevara, adesivos anarquistas, etc. Acompanhada pelo devido marketing a situação foi levada ao próprio colapso: adotar um estilo de vida diferente não quer dizer ser diferente nem procurar novas formas de viver. Pelo contrário, debaixo de muitas camisetas de rock'n roll se esconde a vontade de viver da maneira que melhor condiz com os anos 2010: com muito consumo. Não há nenhum compromisso em ser algo diferente, quando os shopping centers estão cada vez mais impregnados de lojas da nova moda, de modo a ser tão fácil escolher o uniforme da nova maneira de fingir ser, sem que nada de doloroso ou dificultoso surja no meio do caminho da afirmação de uma nova postura, já que esta mesma está começando a ser padronizada e muito bem aceita na sociedade inteira. Não é necessário coragem para o lirismo coagido da balada Augusta.

O que foi um grito de necessidade de declarar um ser que transgrida o exoesqueleto da massa cafona, burguesa e conservadora, é a etiqueta mesmo de uma massa já vazia, ou melhor, esvaziada. Longe de querer ser moralista, não entendo esse fenômeno como incompetência individual. A sociedade de consumo, cujo pai é o capitalismo tardio, impregnou todos os meios da vida. Esse grito foi convertido num sussurro manso e um pouco envergonhado, tão bem espalhado que chega a compor o próprio silêncio da massa. "Quanto é que custa, por favor?". Não mais o "eu sou, eu existo", mais conhecido como "penso, logo existo". Mas somente o eu compro, eu existo, eu visto, eu existo, eu faço, eu existo. E o que era para ser uma identidade unica, cuja personalidade não é composta de fora para dentro, mas de dentro para fora, num alargar da alma, como mostra o pequeno Marcel em seus tempos perdidos, que é de deixar qualquer um chacoalhado com esse movimento da subjetividade que esbarra e embaraça com o mundo concreto, é resumida numa página de Facebook. Personalidade essa, que é apenas um fenômeno, aquilo que aparece, enquanto a coisa em si, à maneira kantiana, se permanece para nós incognoscível, mas pode muito bem ser pensada. A afirmação da personalidade é um "miss direction". Enquanto se apagam nossas verdades mais obscuras, nossos defeitos e nossos "podres", ao mesmo tempo se organizam, escolhem, enfeitam e inventam nossas qualidades. Solidariedade para com os mais pobres e discriminados. Só que no dia da revolução, a lista de presença vai estar vazia.

É de se olhar para esse quadro com bastante melancolia. Perdidos no tempo, nunca o momento certo chega. Quando finalmente vai se realizar o filme da minha vida? Incapazes de viver nosso próprio tempo, que é melhor experienciado quando se arranja tempo para matar tempo (não faz sentido, eu sei!), buscamos o passado obsoleto. A moda retrô desempenha aqui seu papel. A liberdade chegou, mas colocou o homem no deserto sartriano: é-se livre, pode-se ir para onde se quiser, mas não se tem para onde ir. Nessa frustração, o capitalismo é ágil, e numa perpétua novidade estimulada pelo sobrecarregamento de imagens na frágil retina do sujeito contemporâneo, é capaz de satisfazer imediatamente todos os desejos. "Nada é proibido, mas nada é realmente possível". E dando ao público um valor meramente nominal de consumidor, a sociedade do espetáculo, esvazia o sentido do próprio eu, que desamparado, frustra-se e apressa-se a agarrar tudo que lhe faz o gosto e estampar na cor da camiseta. O que seria de mim se as pessoas na rua me confundissem com um cara que gosta de sertanejo?

A cultura da contra-cultura é ela mesma o sistema enraizado. Por suas raízes transitam a seiva de suas próprias pré-concepções (para evitar usar o erro da palavra tão mal entendida "preconceito"). Se a juventude alternativa busca a negação da "tendencia" atual, ela teria então de estabelecer e impor a si a meta revolucionária de fazer o inacreditável: negar a si mesma, e voltar o olhar para o próprio eu. O tempo, ele mesmo, como diz Octavio Paz, se afirma para se negar, se nega para se reinventar. Já não temos mais como recorrer a transcendência, pois Deus está morto. O tempo, imanente, é ele mesmo sua força destruidora, e avança indeciso: se nega e se afirma a toda hora.

A metáfora da estátua de Glauco, usada por Rousseau, ainda conserva atualidade: tal como as intempéries do tempo e do clima desfiguraram tanto a estatua, seja pelo desgaste de sua originalidade (sua natureza, sua essência) seja pela soma de novos componentes (como areia e sujeira) que é quase impossível reconhecer a sua natureza de obra de arte, tal é também o efeito da civilização sobre o homem, que o corrompe, desfigura sua moral, o inflama com vaidade e amor próprio. Mas mais do que atual, essa metáfora faz presente uma perturbação que acredito que não se encontrava em Rousseau, a saber, o medo de que o que caracteriza o ser não é mais sua natureza, mas suas própria desfigurações aparentes, como no caso da estátua de Glauco o que daria nela o estatuto de ser alguma coisa seria a sujeira e o desgaste, sua aparência externas e de que retirados todos agentes que deturpam a natureza desse ser, não reste mais nada.


"Mas o malandro pra valer não espalha [...]"
Chico Buarque






segunda-feira, 1 de abril de 2013

ser passageiro

às vezes só me interessa ser passageiro e ver passar...


 
 "... é difícil ficar bravo quando há tanta beleza no mundo. Às vezes eu sinto que estou vendo tudo de uma vez, e é muito, meu coração se enche como um balão que está prestes a explodir e, então, eu me lembro de relaxar e parar de tentar segurar as emoções que fluem através de mim como chuva, e eu não consigo sentir nada além de gratidão por cada momento da minha vidinha estúpida."

Kevin Spacey como Lester Burnham em "Beleza Americana" (American Beauty, 1999)


(quando você desconhecido passar, vou continuar com minha expressão séria, quase brava. depois que você recém conhecido já tiver passado, vou sorrir, fingindo que é por causa de algo que se passa em meus fones de ouvido. quando você imaginário tiver se instalado, talvez eu continue parando e prestando atenção na letra das musicas de plano de fundo como desculpa.)



 
quantas pessoas amei à primeira e única vista?