sábado, 15 de junho de 2013

A experiência do sujeito na pós-modernidade


“Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real
O momento embriaga... A alma esquece                    
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!”
                          - Álvaro de Campos



O período histórico da arte moderna foi caracterizado pelo ciclo das vanguardas artísticas[1]. O próprio sentido bélico do termo já nos permite esboçar as características essenciais desse ciclo: uma vanguarda é a primeira linha de um exército em ordem de batalha ou de marcha. Isso significa que os diversos movimentos artísticos do modernismo (os famigerados “ismos”: impressionismo, expressionismo, cubismo, construtivismo, e entre outros, por exemplo) assumiam, enquanto programa estético-artístico, a tomada da linha frente, posta em marcha rumo a tempos novos e inexplorados, procurando colonizar esses novos terrenos temporais, ditando as formas da arte do futuro, quando não mesmo a própria sociedade do futuro, libertando-se das teias da tradição. O traço estético principal que deu cores a esse imaginário vanguardista foi a maneira pela qual os artistas procuravam, através de suas obras, impregnar a vida de arte, embaralhar vida e arte, estetizar o real, convictos de que tal projeto libertaria os potenciais cognitivos acumulados no ser humano comum para uma fruição estética sem precendentes em grandeza da experiência cotidiana. O imaginário artístico moderno foi, portanto, carregado pela crença nos potenciais transformadores da arte.
            Foi a esse projeto, todavia, que vários críticos de arte e diversos intelectuais de diferentes áreas do conhecimento, partidários da crença na força transformadora da arte moderna, assistiram ruir melancolicamente. Um novo imaginário surgiu, levantando a preocupação dos críticos. Sem descaminhar pelas peripécias do termo, a pós-modernidade assinala um período de mudança: a arte contemporânea[2] não carrega mais o imaginário transformador desenvolvido pelas vanguardas modernistas. Diversos “sintomas” foram recolhidos nas novas experimentações artísticas que levantavam a questão do adoecimento da experiência estética no mundo contemporaneo[3]. Não são sintomas gratuitos, sinais de uma degeneração interna do modernismo. Trata-se de perguntar então quais são as mudanças na ordem social sobre as quais se fez nascer essa experiência. Não se deve entender a pós-modernidade enquanto falência do projeto moderno consequente de suas próprias contradições internas, mas sim enquanto consequência de uma nova experiência que surgiu enraizada nas novas mudanças da realidade objetiva, causadas pelo desenvolvimento do sistema econômico capitalista no pós-guerra, ao qual Hobsbawn nomeou de “a era de ouro” do capitalismo do breve século XX. Tomamos a pós-modernidade, portanto, como um “conceito de periodização cuja principal função é correlacionar a emergência de novos traços formais na vida cultural com a emergência de um novo tipo de vida social e de uma nova ordem econômica” [4].
            É assim que Fredric Jameson, atento à maneira pela qual essa transformação no modo de produção capitalista, que impregnou a vida com os novos imperativos administrativos da nova ordem mundial e mudou por sua vez a experiência de vida daqueles inseridos nessa malha social, recolhe sintomas para fazer o diagnóstico da pós-modernidade. Voltando-se para o próprio sujeito, ele percebe os novos traços que este apresenta, uma nova sensibilidade inaugurada debaixo da hegemonia do capitalismo multinacional. A perda de consciência histórica, a experiência de uma certa sensação de irrealidade promovida pelo mundo das imagens de diversos meios e a melancolia (depressão) são algumas características (nem todas nomeadas por Jameson, como ainda veremos) do imaginário pós-moderno, que por sua vez se manifestam nas produções artísticas: no hiper-realismo, no cinema de nostalgia, na pop art cada vez mais reafirmando os valores da sociedade de consumo e do amercian way of life, na arquitetura de Las Vegas, nas expressões lúdicas de  livre embaralhamento de signos, etc. A arte moderna, antes subversiva contra a tradição, passou a ser canonizada nos museus e nas universidades, feita a nova inimiga do novo anti-tradicionalismo amante do mundo pop comercial, passa a ser acusada de formas excêntricas de expressão face às novas formas de vida cotidiana surgidas nas condições sociais impulsionadas pelo capitalismo pós-industrial. O objetivo desse trabalho é, em fim, compreender a “especificidade da experiência pós-moderna do espaço e do tempo” e dar cabo de suas principais consequências. Para tanto, farei um traço comparativo entre três teóricos (Fredric Jameson, Jean Baudrillard e Christopher Lasch) sobre este ponto, que lhes é comum.
            Primeiramente, vale indicar quais foram as principais transformações objetivas ocorridas na ordem econômica capitalista, que deram a Jameson a possibilidade de ancorar (o termo é de Perry Anderson) o pós-modernismo na sociedade de consumo. São quatro delas: o desenfreado desenvolvimento da tecnologia (e já adicionamos: o seu predomínio funcionalista essencial no cotidiano, tornando o corpo e o tato sensível obsoletos em diversas situações, e também sua função enquanto produtora de uma experiência acelerada do tempo), tornada maior fonte de lucro; a colonização do setor empresarial pelas corporações multinacionais; o crescimento da especulação financeira internacional; e o desenvolvimento dos modos de comunicação, dando-lhe um poder nunca visto, sobrepondo-se a mídia e “ultrapassando fronteiras”[5]. Nessa situação, a modernização social coloniza todas as instâncias da vida: a cultura torna-se o tecido de nossas vidas. Uma cultura, como tanto insistiu Adorno, explorada pela industria cultural capitalista.
            Acredito que a originalidade da compreensão de Jameson a respeito do espaço pós-moderno e os traços mais característicos da nova sensibilidade que se inaugura a partir da experimentação desse espaço, remete à descrição de sua visita ao Hotel Bonaventure, localizado em Las Vegas. O edifício é um símbolo perfeitamente concreto para mostrar a mudança substancial que o novo capitalismo traz ao espaço do mundo da vida, dentro do qual, uma vez inserido, o individuo vivencia sensações típicas do imaginário pós-moderno. Além disso, o edifício é também, uma obra da arquitetura tipicamente pós-moderna (ressalva sobre as artes críticas), ou seja, não procura mais inserir uma nova linguagem no mundo em que se coloca, questionando-o, mas se propõe a reafirmar as linguagens, os valores e as tendências desse mundo[6]. Vale lembrar, que seu autor (John C. Portman Jr.) é um “artista que é também um capitalista”[7]. O caso exemplar do Bonaventure ganha ainda mais força nesse sentido, pois seu mundo é o mundo do excesso de Las Vegas.
Ainda mais: o sentido dessa construção é simbólico, no sentido imagético da palavra. A relação edifício-mundo, visitante-sujeito, dá a essa obra a realização de seu objetivo de ser um mundo completo em si mesmo. O hotel Bonaventure é a pós-modernidade. O sentido dessa interpretação é baudrillardiano: o hotel não tenta imitar o real, ou ser uma representação à sua imagem e semelhança. Tampouco procura ser uma obra de alguma interpretação estética individual que procura nomear um referente real. Não: procura ser o próprio real, é simulacro. A evocação da fábula de Borges[8] aqui é de perfeito cabimento. Um mapa, que na pretensão de dar uma representação perfeita do Império, acaba por cobrir exatamente todo o seu território; assim também o é o Bonaventure, mas como se o mapa pudesse liquidar seu referente (o mundo), o hotel também liquida o seu: é o modelo de um real sem realidade. É hiper-real, mais real do que o próprio real. Um ambiente virtual que pode ser experimentado com a vivacidade própria da malha urbana. O hotel Bonaventure se apresenta, tal como o museu Beaubourg, como um “monumento à desconexão total, à hiper-realidade e à implosão da cultura” [9]. E não precisamos ficar limitados a somente esse exemplo, pois o mundo contemporâneo está permeado de lugares e situações simulacros. Os parques de diversões, os shoppings centers, os grandes centros de convivência, o mundo da publicidade, o cinema high definition ou 3D, os videogames, e outros.
Imersos nesses espaços, os sujeitos passam a fruir dessas novas noções estéticas. A fronteira entre o real e o virtual desmorona sob o signo do simulacro das imagens pós-modernas. Esses ambientes tendem a sobrecarregar-se de imagens, de convencer o seu publico a mergulhar na irrealidade, substituindo o mundo real, pelo mundo da fantasia, da ficcção, do frenesi consumista. Nesse ritmo frenético, a massa popular corre a esse cenário para celebrar a dissuasão cultural: “as massas precipitam-se para lá não porque salivem por essa cultura de que estariam privadas desde há séculos, mas porque têm pela primeira vez a oportunidade de participar maciçamente nesse imenso trabalho de luto de uma cultura que, no fundo, sempre detestaram” [10]. Como que, por um amor a esse tipo de cenário lúdico, o espectador pudesse se livrar das exigências rigorosas e exaustivas do passado moderno. As reações do espectador oscilam em um clima fúnebre-festivo entre o fascínio e a melancolia. As novas formas de simulação são a realidade. A atenção apreendida por elas se dá sobre a forma de um fascínio que de tal modo estimula os sentidos do sujeito, que ele passa a ignorar todo o real em volta. Um fenomeno analogo ao que acontece com a teoria freudiana da economia libidinal: tira-se energia de um lugar para por no outro. Imerso num presente perpétuo de virtuosidade libidinal, as próprias noções sensoriais do sujeito de percepção dos espaços reais são prejudicadas. Essa nova sensibilidade se dá como um efeito alucinógeno, vertiginoso. Algo se perde nesse processo. “Melancólicos e fascinados, tal é a nossa situação geral” na contemporaneidade: “o fascínio [...] é uma paixão niilista por excelência, é a paixão própria ao modo de desaparecimento [do real]”, enquanto a melancolia “é a tonalidade fundamental [...] dos sistemas atuais de simulação, de programação e de informação”, “é a qualidade inerente ao modo de desaparecimento do sentido”[11]. Em outras palavras: em regime de “pós-modernidade”, o mundo real (aqui entendido enquanto mundo histórico) desaparece diante do fascínio proporcionado pelas novas formas de fruição estética[12].
Esse é um ponto em comum entre Jameson e Baudrillard. O primeiro também se volta para a compreensão do desconcerto espaço-temporal do homem comum inserido nos novos espaços ditos “pós-modernos”. Em sua visita ao Hotel Bonevanture, Jameson faz uma analise do efeito vertiginoso que causa a “livre” movimentação pelo espaço do hotel. Primeiramente, as escadas rolantes e os elevadores, esses “transportadores de pessoas” como diz ele, desempenham papel central para nomear a condução do visitante pelo hotel. Mas isso gera um efeito negativo: o sujeito não necessita mais de suas capacidades de mapeamento do espaço para se auto-determinar nele e livremente se locomover, pelo contrário, ele passa a ser conduzido pelo espaço, o que causa um efeito vertiginoso, desorientador[13]. As “gigantescas estruturas cinéticas” passam elas mesmas a nomear o próprio movimento dentro do hotel: “o passeio da narrativa foi ressaltado, simbolizado, reificado e substituído pela máquina de transporte, que se torna o significante alegórico daquele antigo passeio que não nos é mais permitido fazer por nós mesmos. Essa é uma intensificação dialética da auto-referencialidade de toda cultura moderna, que tende a voltar-se para si mesma e a designar a sua própria produção cultural como o seu conteúdo.”[14] Como o museu Beaubourg, o Bonaventure é simbolizado, reificado, substitui a realidade, se torna um significante alegórico, auto-referente: é simulacro. Ainda dentro do Bonaventure, tende-se a suspeitar de que tudo foi de tal modo arquitetado para ser simplesmente impossível ter qualquer orientação lá dentro. Algo parecido ocorre em um shopping Center: outra construção pós-moderna. Enfim, mergulhado nesses espaços, o sujeito passa a experimentar um desnorteamento de suas capacidades cognitivas de auto-percepçao espaço-temporal. Tudo gira em efeito de vertigem. Um efeito alucinógeno, psicodélico, alimentado pelo excesso de imagens. Tudo para prendê-lo num presente perpétuo, sem referencia ao dito “mundo real”.
Percebendo esse desnorteamento alucinógeno do sujeito, Jameson o à experiência de um esquizofrênico. Ele usa aqui o conceito de Lacan a respeito da esquizofrenia: o esquizofrênico é incapaz de ter uma experiência do tempo em uma continuidade, ficando, portanto, “condenado a um presente perpétuo, como o qual os diversos momentos de seu passado apresentam pouca conexão e no qual não se vislumbra nenhum futuro no horizonte". Mas, por outro lado, sua experiência do presente é muito mais intensa que a nossa. O fascínio opera aqui também: “o mundo surge ante o esquizofrênico com alta intensidade, contendo uma misteriosa sobrecarga afetiva, resplandecendo de energia alucinatória”[15]. Eis o que significa isso, para a nossa compreensão: o sujeito “pós-moderno”, ao experienciar o desconcerto de seus sentidos, perde a noção da realidade, do mundo material histórico: ele se torna incapaz de narrar a experiência do mundo presente em uma linha histórico-temporal continua. O seu futuro morre na linha de um horizonte impossível. Não se torna mais possível experienciar o passado histórico enquanto engendramento de uma realidade passada à realidade presente. O passado fica enclausurado num momento distante, intocável: só é possível se relacionar com ele em espírito de nostalgia. Tudo isso porque, ele (o sujeito) fica preso ao presente perpétuo da fruição das novas formas estéticas fascinantes, presentes nos novos meios de comunicação, nos vídeos em alta definição, no cinema 3D, nos videogames, etc, e também na própria experiência de uma temporalidade acelerada, ou de espaços desnorteantes: aeroportos, museus, hotéis, shoppings Centers, etc.
Há ainda mais um sentido que eu gostaria de dar a todo esse diagnóstico. Notando a auto-referencialidade das artes e do sujeito contemporâneo, é possível dar à “pós-modernidade” mais uma característica: o narcisismo. Voltemos ao Hotel Bonaventure. Jameson, nota como a “pele de vidro” que cobre todo o exterior do edifício, funciona de forma a repelir a “cidade lá fora”, uma força de repulsa, com a qual o Hotel Bonaventure de dissocia “em relação à sua vizinhança”. Lembrando, como notado acima, que o hotel, assim como as outras já citadas obras arquitetônicas da pós-modernidade, “aspira a ser um espaço total, um mundo completo, um tipo de cidade miniatura”[16]. Freud afirma que o narcisismo é um estágio de superestima amorosa do Eu. Tirando o foco de sua energia libidinal do mundo externo e mundando seu sentido para si mesmo, o individuo narcisista se torna indiferente ao mundo que o rodeia, sua própria imagem se torna mais interessante.  O hotel superestima a si mesmo, pretende ser um mundo completo em si só, afasta qualquer necessidade de se referir ao mundo externo, é narcisista.
Reforçamos, porém, que trata-se de elucidar como as novas praticas sociais e estéticas contemporaneas são estimuladas pela ordem economica vigente. Será que é possível identificar sinais de narcisismo na cultura contemporânea? Luciana Chaui Berlinck, em seu livro Melancolia – Rastros de Dor e de Perda, dá as características principais para diagnosticar a sociedade contemporânea como narcisista, das quais eu destaco duas: “o gosto pelo efêmero, e consequentemente, a perda da referencia temporal ao passado e ao futuro, com predominância do presente volátil e inseguro” e “a incapacidade para simbolização e o consequente fascínio pelas imagens e pela nova forma da propaganda e da publicidade”[17]. Duas características que já foram exploradas aqui. Eu arrisco a dizer que a perda do contato com a realidade e ruptura com o passado moderno seja, em certa medida, deliberado. O mundo real, na medida em que o final do século XX se aproximava, lembra Christopher Lasch, se tornara insuportável: “O holocausto nazista, a ameaça de aniquilamento nuclear, o esgotamento de recursos naturais, as predições bem fundamentadas de desastre ecológico preencheram a profecia poética, dando substância histórica concreta ao pesadelo, ou desejo de morte, que os vanguardistas foram os primeiros a exprimir”[18]. Diante de uma realidade tão tortuosa, as pessoas foram levadas a se refugiar nos simulacros para a sobrevivência, a recuar para as suas preocupações sociais. “Viva para si mesmo!”: eis a máxima terapêutica da sociedade contemporânea. O passado se apresenta como um fardo: o projeto de um mundo melhor ruiu, só nos trouxe a desgraça. A geração atual é niilista, no sentido visto acima: apaixonada pelas formas fascinantes de destruição do mundo real. Alimenta-se o gosto pelo efêmero, pelo não durável. “A sociedade narcisista, aquela que incentiva traços narcisistas, desvaloriza culturalmente o passado, não sendo surpreendente que este reapareça sob a forma do revival ou da ‘nostalgia’, como se o passado fosse o mesmo que velhos estilos e velhas modas para sempre terminados e repostos pelo mercado como um bem de consumo”[19].
O peso da vida administrada no capitalismo contemporâneo favorece o empobrecimento da experiência de vida. O mundo do entretenimento lúdico, pop, sobrecarregado de imagens, simulado pela realidade da publicidade serve como uma forma de preencher o vazio que de uma vida que é “algo como a encubadora da violência característica da fantasia do consumo absoluto”[20], como diz Paulo Arantes, a respeito da “metafísica” do BigMac. O sujeito tende cada vez mais a voltar para seus prazeres próprios, a ponto de tornar isso uma neurose. Volta-se a melancolia (que aqui não é entendida num sentido benjameniano, mas clínico: é a depressão). Fechado em seu próprio mundo, desiludido do mundo real, preso num presente perpétuo, as pessoas perdem o interesse pelo mundo exterior, vivem desencantados, suspiram com nostalgia e buscam sanar seus males no consumo compulsivo, no que é efêmero e banal. Como diz Lasch, a sensibilidade contemporanea é terapeutica, só é estimulada por aquilo que pretende sugerir um efeito imediato de remediamento da neurose cotidiana. Em outras palavras: a vida tornou-se insuportável, pobre de experiência, a nova arte, impulsionada pelos interesses comerciais, impregna as livrarias com romances banais com teor de auto-ajuda.
Jameson olha com preocupação para esse cenário decadente. A arte pós-moderna, tal como entendida por ele, não se preocupa, como os antigos vanguardistas, em questionar essa realidade com a intenção de transforma-la. Pelo contrário, faz uma ode a ela, reverencia o pop, rejeita a seriedade do moderno. Jameson insiste na necessidade de “produzir uma relação com o moderno que não signifique nem um apelo nostálgico nem uma denuncia edipiana de suas insuficiências repressivas”[21] para que possamos retomar algum senso histórico, uma perspectiva de futuro. Mas ele é extremamente vago a respeito disso, tal como ele mostra no fim do texto “Pós-modernidade e sociedade de consumo”: “tal questão devemos, todavia, deixar em aberto”. Ao não deixar muito claro como se imagina essa nova relação com o moderno, ele acaba por muitas vezes reafirmar seu diagnóstico[22]. Para Baudrillard, não há volta do simulacro, sua produção é ininterrupta, ele veio para ficar.  O objetivo aqui não é dar uma resposta, uma solução. O fracasso é patente. Talvez seja necessário esperar por outra transformação no âmbito macroestrutural do capital para que seja possível recuperar o fio da meada. Se o capitalismo, na medida em que se desenvolve, desenvolve seus antagonismos, expressos pelas crises, e se estamos numa etapa em que o capitalismo está mais desenvolvido do que na época de Marx ou Lenin, uma crise estrutural é emanente. Alguns, como Nicolas Bourriaud, apelam para o banal, e dizem que a esperança está em comer arroz numa galeria lotada de gente. Outros tentam encontrar o potencial critico em alguns casos particulares arte contemporânea, mas nada com a força e violência de uma vanguarda. O debate é infinitesimal. Meu objetivo, nesse espaço, foi unicamente tentar dar os traços principais da experiência estética contemporânea inaugurada a partir do salto capitalista na metade do século XX.


Nota adicional. Um apêndice, se preferir.

Somos esquizofrênicos. Perdemos a consciência histórica. Tanto é que sempre nos refugiamos nos parâmetros atuais de banalidade de tudo para julgar as consciências de épocas passadas, quando nem tudo era banal, quando ainda havia um projeto, quando o mundo ainda tinha futuro. Pressuposto: o futuro da sociedade de consumo está arruinado. Lembrete: nem sempre o mundo foi assim. O beco sem saída dos frankfurtianos ainda é atual: só a revolução salva, o problema é que ela não vai mais acontecer. Não gosto de me refugiar no grande hotel abismo, portanto, torço por uma crise. É importante não cair no erro do moralismo e lembrar que o problema de hoje não são as pessoas que se tornaram deliberadamente incompetentes para dar uma conjuntura sólida da experiência contemporânea. Em tempos de fim de tudo (fim da arte, fim da história, fim da filosofia - e alguns, mais catastrofomaníancos, adicionariam, como uma conclusão lógica a partir dessas premissas: fim da vida) as teorias megalomaníacos de enraizar a consciência de cada geração na experiência única de seu tempo histórico, construído por um passado, desejando um futuro se tornam as mais sensatas. Walter Benjamin lembra (o que parece ter sido em vão, porque a gente já esqueceu) que a arte se desenvolveu ao longo de um processo histórico, dentro de um modo de produção capitalista, culminando na sua reprodutibilidade técnica. As vanguardas artísticas radicalizam a noção de experiência da realidade, entendida no sentido que adotamos aqui. A experiência única de viver no "auge do capitalismo" na virada do século XIX para o XX. Para nós, já nascidos num mundo velho (eu sou de 94), às vezes esquecemos que o mundo nem sempre foi igual a hoje. Para qualquer um da minha idade, não faz nenhum sentido adotar uma postura vanguardista para ver e perceber o mundo. A banalidade de tudo, já citada. É preciso transportar a consciência para uma determinada época, e entender do que se trata. A aposta real pela sociedade transformada no futuro era o motor sublime da obra de arte. A experiência estética de uma determinada época só deslancha a partir das condições de possibilidade dessa própria experiência. O modernismo não degenerou por falta de forças e nós não adoecemos pelo mesmo motivo. A história tomou novos rumos, o capitalismo tomou conta da vida.
Recentemente, fui tentado numa conversa sobre bossa nova versus rock'n roll, a mostrar como a bossa surge a partir de uma experiência nacional numa época histórica específica, inspirada pelos vestígios de natureza num Brasil em processo de modernização, em espírito de saudosa tristeza, porém bela, a procura de uma identidade nacional, a respeito daquilo que Sergio Buarque de Hollanda diz, que somos "uns desterrados em nossa terra". A resposta que recebi, com uma certa razão foi: "hoje eu me identifico muito mais com uma música dos Ramones do que uma de Tom Jobim". Estava em jogo a birra de escutar música com letra em inglês num país tropical. O que a resposta diz tem toda razão: o ambiente em que nasceu a bossa nova não existe mais. Não há razão para esperar que nasça um Tom Jobim em século XXI, se o mundo que cria as possibilidades de um artista desse porte não existe mais. E tem-se toda a razão ao dizer que devia nascer um novo Tom Jobim, pois se sua arte procurava dar uma consciência de determinada época, então essa época já desenvolveu adiante. Seria correto esperar que alguém nasça para continuar essa obra. Menos ainda somos nós mesmo capazes de experienciar o habitat da bossa nova. A bossa, portanto, velha, hoje paira sem seu referente histórico, exausta pela enésima repetição de "Garota de Ipanema" nas novelas da Globo e nas espetaculares industrialísticas premiações de música brasileira. Tom Jobim: um nome que não diz mais nada. 
As próprias composições brasileiras já percebiam a morte eminente. Tal é o tema, por exemplo, de uma música de Vínicius "Carta ao Tom", na qual ele lamenta ao amigo o turvamento que tomou a cidade do Rio de Janeiro. Numa paródia, Chico Buarque mostra a destruição da natureza promovida pela especulação imobiliária, sob os nomes de Sérgio Dourado. Os poetas ficam condenados à tristeza, diferente daquela tristeza mais bela de antigamente, quando estendido sobre uma esteira de vime, tomando uma cachaça de rolha numa tarde em Itapuã, ficava assistindo o mundo girar. Não é mais possível ver o cantinho de céu e o redentor pela janela. A arte não consegue mais extrair sua força de vestígios de natureza numa cultura que purgou completamente qualquer referencia a um passado pré-moderno. "É meu amigo, só resta uma certeza: é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo o amor".
Os Ramones, pelo contrário, seu berço de nascimento foi o mundo já completamente capitalizado da década de 70. Nasce, portanto, em meio ao pop, ao kitch, ao grito de revolta da decadência. A experiência descendia, o niilismo por um mundo desrealizado. O mesmo ambiente que vivemos até hoje. Faz sentido, portanto, que as pessoas se identifiquem mais com Ramones do que com a bossa: enquanto o mundo que esta tentava mostrar morreu, aqueles expressam a vida como ela é hoje. A bossa tinha vida, os Ramones nasceram dos escombros da civilização.
A música nunca deixou de expressar a consciência de uma determinada época e a experiência dessa época. Se a música de hoje em dia é insuportável, talvez seja porque a vida hoje está insuportável. Outro dia, na faculdade, eu e um amigo conversávamos sobre a constatação óbvia: "sertanejo universitário é uma merda". Eu disse: "pior que tem pessoas se identificam com essa merda". E a resposta, muito sensata, foi: "mas é porque a vida dessas pessoas é uma merda". Volta o que eu disse em cima, a cultura tornou-se o refugio de um mundo arruinado. A cultura é uma farsa, mãe de outra mentira: "a cultura salva o mundo".  Tipo de coisa que alguma empresa privada usada como slogan para algum festival cultural. Vivemos na Matrix: o mundo real está lá, arruinado, enquanto nos refugiamos num mundo de simulação. Uma refugio que foi quase necessário para suportar a realidade. Pra quem estuda humanas, sabe que a depressão e a solidão é eminente, como uma vez ouvir um professor dizer: "quanto mais a gente estuda humanidades, mais a gente se sente sozinho".
Solução? Eu não tenho. O capitalismo é um modo de produção da contradição. A crise é certa. Num mundo mais capitalista do que nunca, que conseguiu colocar seu dedo sujo em todo cantinho de terra, uma crise total é provável: o capitalismo não se sustenta. Talvez será esse o momento de que a crise completa nos coloque de volta no caminho da humanidade. Amém.






[1] Fabbrini, 2006 – p. 1
[2] A dita “pós-modernindade” não se manifesta somente na arte. Como veremos, ela está enraizada numa mudança social maior. Mas a arte foi o polo fundamental para a compreensão das novas mudanças ocorridas no período.
[3] Fica evidente, portanto, o posicionamento do autor a respeito do tema.
[4] Jameson, ano – p. 2
[5] Perry Anderson, 1999 – p. 66
[6] Jameson, 2006 – p. 31
[7] Ibid – p. 37
[8] Baudrillard, 1991 – p. 7
[9] Ibid ­– p. 83
[10] Ibid – p. 87
[11]Ibid – 197 e 199
[12] Algo análogo ao que experiencia o sonhador Álvaro de Campos, em seu poema “A Tabacaria” (muito embora, com respeito também à epígrafe usada acima, nos atenhamos ao intento modernista do poeta), quando ele diz: “Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;/

Mas acordamos e ele é opaco,/ Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira,(...)”. Isto é, recém-saídos de uma sessão terapeutica de imagens High Definition ou em 3D numa sala high tec de cinema, o público teria que suportar a opacidade de mundo real, com suas cores menos contrastantes e suas situações lacunares e embaraçosas.
[13] Gostaria de propor, em guisa de uma digressão, sobre esse sujeito que, na incapacidade de se auto determinar no espaço urbano, vai ao desencontro de sua sensibilidade, um contraponto: como um beatnik que, no livre caminhar, procura expandir seu potencial e se tornar um agente lírico  em meio ao mundo capitalista. Refiro-me, com “jeitinho brasileiro”, à uma música de Cartola, “Preciso me Encontrar”. O eu-lírico, no caso, desolado, sente necessidade de adotar uma postura errante que lhe permita fruir livremente do ambiente urbano: “Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer, quero viver.” O encontro de si mesmo é a expansão de sua sensibilidade em direção a uma experiência estética da realidad, seu ambiente natal: um renascimento.
[14] Jameson, 2006 – p. 35
[15] Jameson,  1985 – p. 6
[16] Jameson, 2006 – p. 33
[17] Berlinck, 2006 – p. 150
[18] Lasch, 1983 – p. 23
[19] Berlinck, 2006 – p. 151-152
[20] Arantes, 2004 – p. 238
[21] Jameson, 2001, p. 91
[22] Fabbrini, 2006 – p. 16

terça-feira, 4 de junho de 2013

Fljótavík

ficamos aqui deitados de novo banhados de inverno;
nos percebemos aqui.
posso te colocar de cabeça para baixo...
 e quando a maré baixa
você
corre

 mais um pouco.

quando será que você vai alcançar nossa linha de chegada?
parece que o asfalto se move no sentido contrário ao seu.
você não tem pressa nenhuma de chegar
porque você já viu tudo, eu sei.

você já avistou todo o final.