
O disco Chet Baker Sings (1956) é o álbum de maior sucesso comercial do trompetista Chet Baker. As razões são quase óbvias, pelo menos para quem já ouviu o disco (facilmente disponível para download). Chet Baker não só lida muito bem com o trompete, o que é ainda mais notável nos seus álbuns de gênero bem distinto do que desse que eu trato aqui, mas a sua voz também é maravilhosa. Não há como não se encantar com seu canto acolhedor, terno, suave. Não é a toa que Baker foi grande sucesso entre as mulheres, já que a beleza se apresentava em sua figura quase por completo (a beleza física, a voz bela, o som do trompete e até o seu estilo cool de menino com cara de jogador de futebol americano do time da faculdade mas que na verdade é o malandro que se envolve em brigas com traficantes). Ao mesmo tempo que Baker despertava o romance, seu romance era o jazz e a heroína. Acabou-lhe sendo atribuído várias etiquetas, como cult ou cool. Em Chet Baker Sings é possível ouvi-lo cantar e tocar trompete em uma só música. As músicas são todas clássicos românticos, como My Funny Valentine e tradicionais do swing, das baladas. Já até compararam Chet Baker com Louis Armstrong na época. Um jovem bonito e talentoso cantando clássicos românticos do jazz... não é a toa o sucesso de vendas.
O disco é, vamos dizer, pop. Claro, poderíamos aqui introduzir uma crítica, tendo em vista o potencial artístico que tinha o jazz bebop, por exemplo, que rompia com as formas tradicionais do jazz e do swing, para acrescentar um toque da cultura underground. É fácil imaginar que Sings é o tipo de disco que encantava uma classe média burguesa que se deleitava com os balanços românticos e glamurosos de alguns salões elitizados e que não refletia sobre uma sociedade marginalizada, mas refletia uma sociedade capitalista e consumista da década de 50 dos Estados Unidos. Pode-se pensar nisso e acho que devemos. Mas não é essa a questão quer quero suscitar. Até porque, se for para ouvirmos músicas românticas, que seja então pelo Chet Baker e Louis Armstrong ao invés da música jovem atual que reflete uma sociedade ultraconsumista (se já chamados a década de 50 de consumista), vaidosa e individualista.
Quero apenas refletir sobre a música, talvez despertando o interesse pelo artista, e que isso leve a outros lugares. Falei sobre o encanto de ouvir Chet Baker cantar e tocar numa mesma música. Muitos disseram que é difícil definir se Baker é um trompetista que canta ou cantor que toca trompete. Ainda mais, sua voz e trompete mesclam de forma a parecerem emergir de uma mesma fonte, desconhecida, misteriosamente enterrada debaixo da personalidade errante e contraditória do artista. Mas ainda pareciam em insistir que Chet Baker canta e toca separadamente, que sua voz cessa quando o som do trompete soa, ou que ele não canta enquanto a sua boca estiver colocada sobre o bocal do instrumento.
Penso diferente. Não vejo um Chet Baker que coloca o trompete de lado para soltar a voz, nem um trompetista que pensa que a hora de cantar acabou quando é hora de fazer um solo. Vejo a voz e o trompete numa mescla contínua formando uma só unidade. A voz é uma extensão de suas notas tocadas e vice-versa. O bocal, não um instrumento externo a ele, mas a forma dourada e precisa de seus lábios. Baker não é um trompetista que canta, ou cantor que troca trompete, mas um músico que canta com o trompete e emite solos metálicos com sua voz. Basta ouvir Time After Time para perceber como isso é evidente. Ali não se separa o cantor do trompetista, nem garganta de trompete, nem voz de solo. São tudo uma coisa só. Talvez como as contradições de sua vida sejam uma coisa só. Romance e vício em drogas. Beleza e decadência. Canto e solo de trompete.
Uma coisa é verdade, ambas qualidades parecem provir de uma mesma fonte. E aí é que está a unidade. Cantar e tocar é tão necessário e, por isso, natural, que é impossível evitar um dos dois, ou fazer um valer mais do que o outro, ou mesmo separá-los. Como chamamos um ator de uma ópera? Cantor ou ator? Como separar um dos dois, se para a própria natureza do personagem não existe tal separação, mas apenas uma necessidade de expressão? Talvez possamos buscar essa unidade em várias outras expressões artísticas. Goethe, um poeta ou romancista? Rousseau, poeta, músico, filósofo, romancista...? Só consigo afirmar que eram todos artistas. Não haviam separação entre vida e obra, entre as contradições ou as formas distintas de expressão. Tudo compunha a obra. Quem sabe não era o vício e a decadência de Chet Baker que subia todo dia aos palcos para uma performance incrível? E quem disse que não era o garoto bonito e amável que fugia inseguro ao mundo das drogas? Não digo que gosto de ouvir Chet Baker cantar ou tocar trompete, nem que gosto dele bonito de cabelo arrumado ou acabado e enfiando uma agulha no braço, mas apenas que gosto de ouvir Chet Baker.
"Chet, Chet, Chet… mil vezes Chet! Nunca vi algo tão louco portar tão bem a porra de um trompete alucinado feito um deus no topo da montanha mais alta da imaginação sonora. Seu cool jazz me fazia alucinar, suas frases enlouquecidas me tiravam do cérebro. Um puta mentiroso esse maldito! Um grande beatificado esse cadavérico artista das estrelas. Sua música inundou Nova York de inveja, ninguém acreditava que um branquelo banguela poderia comandar tão bem o ofício da negaiada. Davis até tentou esconder seu espanto, mas ninguém mais do que ele mesmo foi capaz de reverenciar o diabo louro do oeste.E depois de uma noite incrível de Jazz e whisky fui apresentado ao promissor Chet como um promissor escritor do leste. Estava de passagem pelos arredores de L.A., era uma segunda-feira fodida em que eu e o pessoal não tinha porra nenhuma para fazer e surgiu a idéia de visitar um bar que ficava nos arredores da cidade. Era um porão que abria as portas para o Jazz toda segunda. Acho que era nesse dia por que ninguém iria querer ver esse tipo de coisa acontecendo no fim de semana. Tinha uma galera bacana em Los Angeles que odiava qualquer coisa que vinha dos negros e esse pessoal não tolerava qualquer citação a eles. E nós como éramos loucos por tudo que saia da alma negra, íamos onde ela estivesse.Pete me pegou pela gola e me levou para um canto onde um pessoal puxava um fumo. A princípio achei que essa era a nossa intenção, mas de repente percebi que ele queria me apresentar ao altão louro e banguela que falava sem parar de seus feitos.- Hey Chet, esse é Jack, o cara que eu te falei!- E ai? – Baker estendeu a bagana na minha direção e me ofereceu o baseado. É claro que aceitei na hora e antes de responder o seu cumprimento, mandei a fumaça para o mais profundo do meu corpo e ainda com ela estocado no meu peito respondi:- Cara, você manda como os negões da costa leste. Tem um pessoal lá que não irá acreditar quando eu falar que vi alguém ao nível do Parker e do Davis.Acho que ele não se sentiu muito à vontade com a comparação, pois praticamente ignorou o que eu disse e se virou para um outro cara que ali estava. Porém, antes de sair dali, ele me disse que depois queria continuar a nossa conversa. Eu apenas abanei a cabeça e passei o fumo para o próximo. Pete ficou meio envergonhado, mas eu logo acalmei a sua ansiedade e pedi para ele relaxar. Já estava acostumado com essas pretensas estrelas, eu mesmo era uma delas, afinal.Acho que nunca mais a gente se falou direito, apenas na Europa em 61, mas passei a anunciá-lo por onde for que eu fosse. Acho que sentia uma energia estranha que rolava em mim e que não sei exatamente porque, via que tinha naquele cara. Penso que devia ser o caso de eu ver nele algo que eu nunca pude ser, um branco tocador de jazz.Ao longo da década de 50, quando Chet chegava a NY, eu fazia questão de levar o pessoal para ouví-lo, mas o meu orgulho nunca me permitiu muita aproximação. Na verdade, tinha medo dele sair de fininho como da outra vez. Acho também que o filho da puta ficou ofendido de eu dizer que ele tocava como os negões. Um mané orgulhoso de uma figa que se achava um deus. E por que não? Talvez fosse mesmo, um daqueles sopros divinos que descem ao inferno para se deprimir e instigar aos simples mortais na mais pura arte das estrelas.Quando eu já tinha me transformado em um escritor célebre, tive um encontro com o maldito na Europa. Naquela época acho que tanto eu quanto ele estávamos mais a fim de nos enlouquecer do que falar com as pessoas. Assim, numa festa de uma bicha italiana que vivia em Paris tivemos a honra de dividir a mesma agulha e ficarmos soltos por umas horas, investigando cada um a alma do outro. No início havia ainda uma moçada, mas de repente só sobrou o nosso papo alucinado, cada um falando arrastado e desorientado sobre si e também de como as pessoas e a imprensa nos deprimiam. Chegamos a conclusão que o melhor mesmo era entrar cada vez mais para dentro e esquecer que existe algo ai fora. Ficamos ainda mais deprimidos e percebemos que sim, havia algo entre a gente, mas era tão pesado que o melhor seria cada um esquecer o outro, como se esquece do que acontece num porre de vodka."
Jack Kerouac
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