quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Despertar da vigília

Deito-me no fim de um dia que é resultado e continuação da obra humana considerada como a mais sublime, que consiste em livrar o homem de sua bestialidade animal, de torná-lo grande e civilizado, de atarefar-lhe com o esforço da utilidade do trabalho, da família e do conhecimento. Deito-me no fim de um dia na civilização. Deito-me na escuridão ainda vertiginosa da lâmpada recém-apagada, enquanto a escassa luz noturna, da rua e da lua, encontra seu caminho para dentro do meu quarto e para a sombra da minha mobília. Deito-me sobre o travesseiro cientificamente projetado para meu melhor conforto e saúde, e fico ouvindo seus estalos, como se fosse a minha própria orelha que estalasse em alguma infância esquecida. Deito-me para ouvir o silêncio do ruído continuo dos carros janela à fora, o silêncio do ranger dos móveis de madeira do meu quarto, dos passos intrusos dos meus vizinhos que pisoteiam por todo o teto do meu apartamento, do zumbido da televisão desligada. Deito-me no fim de um dia esquecido, que parece nunca ter começado, uma sensação que se prolonga ao próximo despertar, ao próximo adormecer, etc. Deito-me, não numa vida que é atarefada, mas numa grande e enorme tarefa, à qual é permitido às vezes um pouco de vida e descanso. Deito-me depois de mais um dia da comprova impermeável da grandeza das conquistas e obras do homem, de tudo quanto é inovações tecnológicas que me põem em todo lugar a todo momento. Deito-me, como resultado de todas as ferramentas históricas criadas para tentar fazer a humanidade mais feliz e evoluída.

Deito-me, mas não durmo. As piscadelas que dou, longas ou curtas, que duram alguns segundos ou algumas horas, não merecem o nome de sono. Deito-me, mas sou às vezes assaltado por um desnorteio que me coloca num estado mais regressivo e pré-histórico do que o do nosso ancestral primata que enfia o dedo no cu pra cheirar. Deito-me e levanto-me num cansaço que supera a impotência e a burrice do homem das cavernas. Deito-me, mas sou açoitado por pesadelos que me fazem gritar incessantemente pela minha mãe e me fazem mijar nos meus pijamas. Deito-me e sou colocado num estado de alucinação que remonta à minha primeira embriaguez quando, com as pernas imobilizadas e inválidas, eu tentava correr por uma escadaria, sempre pisando em vão, tentando fujir da imagem feminina que vinha para roubar minha inocência e bondade. Deito-me, mas me resta tão pouco da minha existência que eu existo menos do que quem já morreu. Deito-me e tenho a sensação de que nada se move, nem mesmo tudo o que é movimento, nem mesmo o avião que cruza o continente numa noitada só, nem mesmo a Terra e Sol a girar, fazendo nascer os dias, os meses, os anos e as eternidades. Deito-me e sou mais velho do que Deus, mais novo do que o espermatozoide mais lento do bando. Deito-me e meu corpo dói e lateja como se eu fosse um pedreiro ainda de pé jogando tijolos prédio acima. Deito-me e sou vazio; desfaço-me sobre a cama que não reclama e que é muito mais do que eu; de fato, tenho mais história para contar sobre a minha cama do que sobre mim: posso dizer de que madeira ela foi feita, em que ano foi fabricada e por quem, etc. O que posso dizer sobre mim? Qual é a minha história? De que matéria fui feito e por quem?

Antes essas inquietações provocassem em mim o maravilhamento que fez nascer a primeira metafísica, do que me colocassem em desencanto e desinteresse para transcender minha vida e, portanto, cria-lá. Eu me deito sem metafísica, sem sentido nem maravilha, mas somente me deito...


13/02/2013

Nenhum comentário:

Postar um comentário