quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
A mediocridade da vida alheia
“Na questão urbana, ao ser render a uma entidade abstrata como é o povo, os populistas não conseguem se render à variedade que é o povo.” David Harvey
Mesmo que em cada gole de cerveja barata a garganta pareça tampada, o líquido fermentado que insiste em entrar - por coerção - seria uma boa metáfora para o destino cíclico que é jogado pelo ralo toda vez que transborda o esgoto moral. Beba mais e fale menos.
E quem poderia dizer se ele se faz valer a pena rebaixando-se à mediocridade da vida alheia, indo contra toda a literatura de auto-ajuda que prega a individualidade mágica e incoerente que faz das suas desgraças aprendizado. Como todas as outras desgraças.
Cretino e ordinário esse destino “in disguise” metido a Deus.
(Cretinices a parte, submete-se por agnosticismo ou por tédio)
Cretino e ordinário esse destino “in disguise” metido a Deus.
(Cretinices a parte, submete-se por agnosticismo ou por tédio)
A coação interna é parte do fato social pré-determinado de que se acostuma ao gosto amargo da cerveja. E que amargura é uma ótima metáfora para a morte, principalmente quando ela boia no esgoto até o mar. Porque a morte provocada o impede de ir para o céu.
(Crendices a parte, fica no ar o paradoxo soprado em forma de folhas secas, solas de sapato e eufemismos da vida).
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
despadronagem fragmento
E observa o urubu de seu pedestal, poste de iluminação
que levou consigo algumas estrelas a mais, a cidade que está prestes a
governar.
Hoje a cidade continuou escorrendo pela escassa mata
ciliar e renasceu de sua autofagia diária através dos desenhos e gritos estampados
nos muros.
Despadronagem em fragmentos. Tudo o que pode ser
assistido coberto pelo vidro do carro e tudo o que se julga em frações de
segundos passa pelos olhos, diante de todo o tempo.
A primeira pessoa chama de novo: “Você um dia poderá
saber quantos passageiros sorriram pra você enquanto carregava em seu corpo a
cegueira?”, e a conclusão não se dá no final.
Ainda posso quedar aqui fugida?
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Príncipes
Cabelos longos, barba, roupas escuras, pele sombreada, coroa de pano e dormitório de cimento.
Até as quatro primeiras descrições seria possível enganar quem lê que eu estava de fato descrevendo um príncipe ou um príncipe encantado qualquer, porém nada é mais obscuro para quem lê que se imaginar efetivamente vivendo sem teto, em um chão de cimento, sem ter para onde remotamente correr.
A minha problemática é que hoje o conceito de príncipe está um pouco corroído. Existem os príncipes clássicos como o da Cinderela ou os loiros naturais das fantasias de Idade Média, porém existem também os príncipes artificialmente criados: programas de computador alteram as fotos dos garotos tanto quanto das garotas, garotas sonham antes com palácios que com os príncipes, as mídias em geral ditam a tendência do príncipe (ou da rainha) que vai encontrar superficialmente seu coração.
Então, com essa versatilidade do conceito do que é um príncipe hoje em dia e a falta de ideologia inserida neste conceito - ou melhor dizendo, na posição de “neutralidade” não-neutra das coisas -, eu vejo os moradores de rua como mais uma espécie de príncipes distorcidos da atualidade.
Ao invés de donzelas em perigo, eles se salvam. Possuem amigos fiéis, os vira-latas. Alguns usam capas, ditam moda com os rasgos do desgaste em suas roupas, tem castelos enormes, porém sem coberturas permanentes: as ruas. A maior divergência está na falta completa do luxo e talvez nos vícios - não generalizando, logo que eu acredito que o príncipe da Cinderela deveria gostar de água ardente.
Existem todos os tipos de moradores de rua, existem até aqueles que possuem, poderiam possuir ou nunca poderão possuir uma casa. A rua é a comunidade deles.
Por fim, falta um tijolo para desconstruir totalmente a imagem dos príncipes idealizados: os reais são reconhecidos pela indiferença.
Posso estar atingindo o máximo do clichê ao dizer isso, mas poucos são os príncipes, os verdadeiros cavalheiros e cavaleiros e heróis das moças e moços em perigos que são reconhecidos - é por isso, que eu não me sinto cega em colocar os moradores de rua como uma mais nova modalidade de príncipes da atualidade.
Entram nessa classificação, todos aqueles que morrem por qualquer ideal (um pão, por exemplo), e não sabemos o por quê, ou melhor, recebemos informações longínquas daquilo que deveria ser a realidade na história contada de quem morreu e não pode mais contar. É questionável: afinal, quem eu quero defender?
Meu último argumento: como símbolos da indiferença diária os moradores de rua são príncipes que de alguma forma denunciam mais uma vez para todos os cidadãos, que escoam de suas esferas privadas para as públicas, as desigualdades sociais do mundo; qual será então o acréscimo de consciência que trouxeram os famosos príncipes colírios de classe (econômica) A de uma revista sem capricho de existir para quase toda uma geração de garotas (e garotos) o ápice da superficialidade e aparência do que é o amor e a esfera pública hoje em dia?
“Faltaram os olhos azuis, mas isso é genético. Os castanhos são igualmente bonitos.”
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