quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

The Wall e o mal-estar na civilização

Freud, O Mal-Estar na Civilização e o muro de Pink Floyd...



"Não é de admirar que, sob a pressão destas possibilidades de sofrimento, os indivíduos costumem moderar suas pretensões à felicidade - assim como também o princípio do prazer se converteu no mais modesto princípio da realidade, sob a influência do mundo externo -, se alguém se dar por feliz ao escapar à desgraça e sobreviver ao tormento, se em geral a tarefa de evitar o sofrer impele para segundo plano a de conquistar o prazer". 
Freud, O Mal-Estar na Civilização

"O deliberado isolamento, o afastamento dos demais é a salvaguarda mais disponível contra o sofrimento que pode resultar das relações humanas. Compreende-se: a felicidade que se poder alcançar por essa via é a da quietude. Contra o temido mundo externo o indivíduo só pode se defender por algum tipo de distanciamento, querendo realizar sozinho essa tarefa." 
Idem

"What shall we use to fill the empty spaces where we used to talk? How shall I fill the final places? How should I complete the wall...?" 
Pink Floyd, The Wall


Sempre me perguntei o que seria esse tal de muro (the wall) do Pink Floyd. Achei que tinha um significado político forte, ou alguma coisa do tipo... Não, compreende-se: o álbum é uma autoanálise do Roger Waters. O muro é uma parede de isolamento. Entender contra o que ele isola e por que, será o objetivo desse texto. Por isso, retorno ao Freud, ao Mal-Estar, ao princípio de prazer regendo a finalidade da vida, para entender essa, ouso dizer, necessidade de se isolar do mundo e das penosas relações humanas na procura pela finalidade da vida.

Geralmente, acorda-se que a finalidade da vida do ser humano é buscar a felicidade. Vivemos na busca da felicidade. Mas, é fato de que esse tema é constantemente emprestado pelas maiores empresas do gênio humano. Podemos procura-la nos livros dos filósofos, "heróis pensantes da razão", para entender a busca da felicidade; ou, podemos procura-la na "obra" de Paulo Coelho ou de qualquer auto-ajuda piegas. Não deixa de ser verdade que, por ser tão bem aceita, a ideia de felicidade chegou a ser bem banalizada em alguns casos.

A religião teve um papel muito importante para a a busca da felicidade dos homens: ela não só dava algum significado às questões enigmáticas dá vida, quanto ainda oferecia uma Providência que cuidará dessa vida e a compensará com outra melhor. É verdade que as ciências e as artes substituíram a religião, pois elas roubaram o conteúdo desta. É verdade também, que a vida é difícil, oferece muitas dores, decepções e tarefas insuportáveis. Diante disso, Freud aponta três soluções contra as dores da vida: poderosas diversões, gratificações substitutivas e substâncias inebriantes (ou, se preferir, confortavelmente entorpecentes). É preciso ver o papel da religião aqui. Tomo a ideia de que a felicidade nada mais é que a finalidade da vida do homem, e só a religião sabe responder sobre a finalidade da vida. Não vou ficar aqui desenvolvendo muito isso, lembro que Freud chama a necessidade da religião como uma necessidade infantil. Além disso, fica aqui a indicação de um estudo.

Fiquemos então, com a ideia de que a felicidade é a finalidade da vida. Tal felicidade é possível por dois caminhos: através da sensação de fortes prazeres, ou, a que mais importa pro nosso assunto, a ausência de dor ou desprazer. Não vou falar sobre a primeira. Quanto a segunda, nos faz pensar que a não-sensação de dores e desprazeres é uma felicidade. A vida do homem se desdobra por um desses caminhos. A finalidade da vida acaba por ser programada pelo princípio do prazer, onde, de um lado, está a tentativa de conseguir prazer, e de outro, de evitar o desprazer.

Ainda mais, pode-se dizer que é muito mais fácil sentir a infelicidade, ao contrário da certa dificuldade de conseguir felicidade. Podemos comprovar isso pela característica episódica da felicidade, que aparece em momentos intervalados, com curta duração. O resto do tempo, é ausência de felicidade, e é por isso também, que a felicidade surge como um momento de usufruir o contraste entre a longa e fácil infelicidade e a curta e difícil felicidade. Então, a felicidade pode ser também um momento de ausência de infelicidade. As substâncias confortavelmente entorpecentes apresentam um papel importante nisso. O álcool mesmo, não produz um efeito de prazer, mas de insensibilidade às nossas infelicidades.

 A facilidade com que a infelicidade nos atormenta se deve à pluralidade de fontes de sofrimento que nos assolam. São elas: nosso corpo, o mundo externo e nossa relação com outras pessoas. Essa última, diz Freud, é a que causa mais dor. Aqui, voltamos à primeira citação. Diante de tamanha possibilidade de sofrimento, este se torna a nossa realidade, e diante desta, nossas pretensões à felicidade diminuem. Seria irreal ter pretensões de felicidade muito ousadas. A realidade constante e insistente do sofrimento tem um peso maior em relação às nossas pretensas felicidades. Assim sendo,  quando nos livramos e nos salvamos do sofrimento, nós inibimos o sofrimento e isso se torna uma busca mais real no jogo da felicidade do que a própria conquista de prazer. A conquista de prazer passa para um segundo plano.

Diante disso, existem aqueles sujeitos (ao sofrimento e ao prazer) mais metódicos, eu diria. São aqueles que compreendem que o peso da inibição do sofrimento é maior do que o da conquista do prazer ele mesmo. A conquista de prazer é um tanto perigosa: sua busca pode ser colocada acima da cautela, como diz Freud. Isso também é um fator pelo qual se opta pela supressão do desprazer. O prazer está em regiões um pouco perigosas, onde o risco também é grande. As drogas do prazer, por exemplo, são perigosas. Aqui, vemos então a segunda citação. Esses, os mais metódicos, como eu disse, diante então de todo esse quadro na busca ambivalente do prazer, se volta para as fontes mesmas de sofrimento. Metódicos, eu digo pois, por não saberem qual a fonte mais nociva, nem conseguir isolar sofrimentos particulares, pois como vimos, na vida eles são muitos, eles então resolvem se isolar de toda fonte de um possível sofrimento.

É por essa via, que existem pessoas, como o personagem Floyd do álbum The Wall (recomendo ver o filme The Wall), que resolvem se isolar de duas das fontes de sofrimento: o mundo externo e as relações com outras pessoas. Aquela outra fonte de sofrimento, o nosso próprio corpo, suas dores e suas doenças, será coibida de outra maneira, como já citei, através da intoxicação do próprio corpo. Proponho a reflexão de pensar o papel da medicina, portanto, da própria ciência em nos livrar do sofrimento do nosso corpo. Embora eu não queira focar nesse ponto, ele aparece, por exemplo, em Comfortably Numb, uma música sobre o uso de relaxantes musculares. Tendo em vista, toda a ideia desenvolvida até aqui, é possível ver como o muro, a parede (the wall) é uma metáfora para um isolamento voluntário entre o sujeito e o mundo externo junto com as relações humanas nele contida.

Eu bem queria, mas não vou ficar analisando muito as músicas e letras do The Wall. Vou propor apenas uma pequena reflexão que sirva de um incentivo para tentar entender essa ópera rock. O álbum mesmo usa a linguagem musical, e não queria arruiná-la com essa linguagem bloguista  Mas pensemos um pouco sobre o que são os tijolos na parede (the bricks in the wall). As músicas fazem referências constantes às memórias de experiências traumatizantes do pequeno Floyd com as pessoas de sua vida, principalmente durante a infância. A morte do pai na guerra, a mãe super-protetora, os professores tiranos e, mais tarde, já na fase adulta, o divórcio, as frustrações sexuais, a fama, etc. Se pensarmos bem, cada uma dessas experiências traumatizantes, cada um desses sofrimentos provenientes de fontes externas, são tijolos da parede construída para se isolar dessas mesmas fontes. All in all it was all just bricks in the wall.

Não quero me estender mais que isso, insisto que as pessoas façam a reflexão elas mesmas. Vou deixar aqui o vídeo desse maravilhoso álbum que é o The Wall.

Boa viagem!




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