quinta-feira, 14 de março de 2013

Chet Baker canta


O disco Chet Baker Sings (1956) é o álbum de maior sucesso comercial do trompetista Chet Baker. As razões são quase óbvias, pelo menos para quem já ouviu o disco (facilmente disponível para download). Chet Baker não só lida muito bem com o trompete, o que é ainda mais notável nos seus álbuns de gênero bem distinto do que desse que eu trato aqui, mas a sua voz também é maravilhosa. Não há como não se encantar  com seu canto acolhedor, terno, suave. Não é a toa que Baker foi grande sucesso entre as mulheres, já que a beleza se apresentava em sua figura quase por completo (a beleza física, a voz bela, o som do trompete e até o seu estilo cool de menino com cara de jogador de futebol americano do time da faculdade mas que na verdade é o malandro que se envolve em brigas com traficantes). Ao mesmo tempo que Baker despertava o romance, seu romance era o jazz e a heroína. Acabou-lhe sendo atribuído várias etiquetas, como cult ou cool. Em Chet Baker Sings é possível ouvi-lo cantar e tocar trompete em uma só música. As músicas são todas clássicos românticos, como My Funny Valentine e tradicionais do swing, das baladas. Já até compararam Chet Baker com Louis Armstrong na época. Um jovem bonito e talentoso cantando clássicos românticos do jazz... não é a toa o sucesso de vendas.


O disco é, vamos dizer, pop. Claro, poderíamos aqui introduzir uma crítica, tendo em vista o potencial artístico que tinha o jazz bebop, por exemplo, que rompia com as formas tradicionais do jazz e do swing, para acrescentar um toque da cultura underground. É fácil imaginar que Sings é o tipo de disco que encantava uma classe média burguesa que se deleitava com os balanços românticos e glamurosos de alguns salões elitizados e que não refletia sobre uma sociedade marginalizada, mas refletia uma sociedade capitalista e consumista da década de 50 dos Estados Unidos. Pode-se pensar nisso e acho que devemos. Mas não é essa a questão quer quero suscitar. Até porque, se for para ouvirmos músicas românticas, que seja então pelo Chet Baker e Louis Armstrong ao invés da música jovem atual que reflete uma sociedade ultraconsumista (se já chamados a década de 50 de consumista), vaidosa e individualista.

Quero apenas refletir sobre a música, talvez despertando o interesse pelo artista, e que isso leve a outros lugares. Falei sobre o encanto de ouvir Chet Baker cantar e tocar numa mesma música. Muitos disseram que é difícil definir se Baker é um trompetista que canta ou cantor que toca trompete. Ainda mais, sua voz e trompete mesclam de forma a parecerem emergir de uma mesma fonte, desconhecida, misteriosamente enterrada debaixo da personalidade errante e contraditória do artista. Mas ainda pareciam em insistir que Chet Baker canta e toca separadamente, que sua voz cessa quando o som do trompete soa, ou que ele não canta enquanto a sua boca estiver colocada sobre o bocal do instrumento.

Penso diferente. Não vejo um Chet Baker que coloca o trompete de lado para soltar a voz, nem um trompetista que pensa que a hora de cantar acabou quando é hora de fazer um solo. Vejo a voz e o trompete numa mescla contínua formando uma só unidade. A voz é uma extensão de suas notas tocadas e vice-versa. O bocal, não um instrumento externo a ele, mas a forma dourada e precisa de seus lábios. Baker não é um trompetista que canta, ou cantor que troca trompete, mas um músico que canta com o trompete e emite solos metálicos com sua voz. Basta ouvir Time After Time para perceber como isso é evidente. Ali não se separa o cantor do trompetista, nem garganta de trompete, nem voz de solo. São tudo uma coisa só. Talvez como as contradições de sua vida sejam uma coisa só. Romance e vício em drogas. Beleza e decadência. Canto e solo de trompete.

Uma coisa é verdade, ambas qualidades parecem provir de uma mesma fonte. E aí é que está a unidade. Cantar e tocar é tão necessário e, por isso, natural, que é impossível evitar um dos dois, ou fazer um valer mais do que o outro, ou mesmo separá-los. Como chamamos um ator de uma ópera? Cantor ou ator? Como separar um dos dois, se para a própria natureza do personagem não existe tal separação, mas apenas uma necessidade de expressão? Talvez possamos buscar essa unidade em várias outras expressões artísticas. Goethe, um poeta ou romancista? Rousseau, poeta, músico, filósofo, romancista...? Só consigo afirmar que eram todos artistas. Não haviam separação entre vida e obra, entre as contradições ou as formas distintas de expressão. Tudo compunha a obra. Quem sabe não era o vício e a decadência de Chet Baker que subia todo dia aos palcos para uma performance incrível? E quem disse que não era o garoto bonito e amável que fugia inseguro ao mundo das drogas? Não digo que gosto de ouvir Chet Baker cantar ou tocar trompete, nem que gosto dele bonito de cabelo arrumado ou acabado e enfiando uma agulha no braço, mas apenas que gosto de ouvir Chet Baker.

"Chet, Chet, Chet… mil vezes Chet! Nunca vi algo tão louco portar tão bem a porra de um trompete alucinado feito um deus no topo da montanha mais alta da imaginação sonora. Seu cool jazz me fazia alucinar, suas frases enlouquecidas me tiravam do cérebro. Um puta mentiroso esse maldito! Um grande beatificado esse cadavérico artista das estrelas. Sua música inundou Nova York de inveja, ninguém acreditava que um branquelo banguela poderia comandar tão bem o ofício da negaiada. Davis até tentou esconder seu espanto, mas ninguém mais do que ele mesmo foi capaz de reverenciar o diabo louro do oeste.
E depois de uma noite incrível de Jazz e whisky fui apresentado ao promissor Chet como um promissor escritor do leste. Estava de passagem pelos arredores de L.A., era uma segunda-feira fodida em que eu e o pessoal não tinha porra nenhuma para fazer e surgiu a idéia de visitar um bar que ficava nos arredores da cidade. Era um porão que abria as portas para o Jazz toda segunda. Acho que era nesse dia por que ninguém iria querer ver esse tipo de coisa acontecendo no fim de semana. Tinha uma galera bacana em Los Angeles que odiava qualquer coisa que vinha dos negros e esse pessoal não tolerava qualquer citação a eles. E nós como éramos loucos por tudo que saia da alma negra, íamos onde ela estivesse.
Pete me pegou pela gola e me levou para um canto onde um pessoal puxava um fumo. A princípio achei que essa era a nossa intenção, mas de repente percebi que ele queria me apresentar ao altão louro e banguela que falava sem parar de seus feitos.
- Hey Chet, esse é Jack, o cara que eu te falei!
- E ai? – Baker estendeu a bagana na minha direção e me ofereceu o baseado. É claro que aceitei na hora e antes de responder o seu cumprimento, mandei a fumaça para o mais profundo do meu corpo e ainda com ela estocado no meu peito respondi:
- Cara, você manda como os negões da costa leste. Tem um pessoal lá que não irá acreditar quando eu falar que vi alguém ao nível do Parker e do Davis.
Acho que ele não se sentiu muito à vontade com a comparação, pois praticamente ignorou o que eu disse e se virou para um outro cara que ali estava. Porém, antes de sair dali, ele me disse que depois queria continuar a nossa conversa. Eu apenas abanei a cabeça e passei o fumo para o próximo. Pete ficou meio envergonhado, mas eu logo acalmei a sua ansiedade e pedi para ele relaxar. Já estava acostumado com essas pretensas estrelas, eu mesmo era uma delas, afinal.
Acho que nunca mais a gente se falou direito, apenas na Europa em 61, mas passei a anunciá-lo por onde for que eu fosse. Acho que sentia uma energia estranha que rolava em mim e que não sei exatamente porque, via que tinha naquele cara. Penso que devia ser o caso de eu ver nele algo que eu nunca pude ser, um branco tocador de jazz.
Ao longo da década de 50, quando Chet chegava a NY, eu fazia questão de levar o pessoal para ouví-lo, mas o meu orgulho nunca me permitiu muita aproximação. Na verdade, tinha medo dele sair de fininho como da outra vez. Acho também que o filho da puta ficou ofendido de eu dizer que ele tocava como os negões. Um mané orgulhoso de uma figa que se achava um deus. E por que não? Talvez fosse mesmo, um daqueles sopros divinos que descem ao inferno para se deprimir e instigar aos simples mortais na mais pura arte das estrelas.

Quando eu já tinha me transformado em um escritor célebre, tive um encontro com o maldito na Europa. Naquela época acho que tanto eu quanto ele estávamos mais a fim de nos enlouquecer do que falar com as pessoas. Assim, numa festa de uma bicha italiana que vivia em Paris tivemos a honra de dividir a mesma agulha e ficarmos soltos por umas horas, investigando cada um a alma do outro. No início havia ainda uma moçada, mas de repente só sobrou o nosso papo alucinado, cada um falando arrastado e desorientado sobre si e também de como as pessoas e a imprensa nos deprimiam. Chegamos a conclusão que o melhor mesmo era entrar cada vez mais para dentro e esquecer que existe algo ai fora. Ficamos ainda mais deprimidos e percebemos que sim, havia algo entre a gente, mas era tão pesado que o melhor seria cada um esquecer o outro, como se esquece do que acontece num porre de vodka."

Jack Kerouac                                                                        
                                




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Despertar da vigília

Deito-me no fim de um dia que é resultado e continuação da obra humana considerada como a mais sublime, que consiste em livrar o homem de sua bestialidade animal, de torná-lo grande e civilizado, de atarefar-lhe com o esforço da utilidade do trabalho, da família e do conhecimento. Deito-me no fim de um dia na civilização. Deito-me na escuridão ainda vertiginosa da lâmpada recém-apagada, enquanto a escassa luz noturna, da rua e da lua, encontra seu caminho para dentro do meu quarto e para a sombra da minha mobília. Deito-me sobre o travesseiro cientificamente projetado para meu melhor conforto e saúde, e fico ouvindo seus estalos, como se fosse a minha própria orelha que estalasse em alguma infância esquecida. Deito-me para ouvir o silêncio do ruído continuo dos carros janela à fora, o silêncio do ranger dos móveis de madeira do meu quarto, dos passos intrusos dos meus vizinhos que pisoteiam por todo o teto do meu apartamento, do zumbido da televisão desligada. Deito-me no fim de um dia esquecido, que parece nunca ter começado, uma sensação que se prolonga ao próximo despertar, ao próximo adormecer, etc. Deito-me, não numa vida que é atarefada, mas numa grande e enorme tarefa, à qual é permitido às vezes um pouco de vida e descanso. Deito-me depois de mais um dia da comprova impermeável da grandeza das conquistas e obras do homem, de tudo quanto é inovações tecnológicas que me põem em todo lugar a todo momento. Deito-me, como resultado de todas as ferramentas históricas criadas para tentar fazer a humanidade mais feliz e evoluída.

Deito-me, mas não durmo. As piscadelas que dou, longas ou curtas, que duram alguns segundos ou algumas horas, não merecem o nome de sono. Deito-me, mas sou às vezes assaltado por um desnorteio que me coloca num estado mais regressivo e pré-histórico do que o do nosso ancestral primata que enfia o dedo no cu pra cheirar. Deito-me e levanto-me num cansaço que supera a impotência e a burrice do homem das cavernas. Deito-me, mas sou açoitado por pesadelos que me fazem gritar incessantemente pela minha mãe e me fazem mijar nos meus pijamas. Deito-me e sou colocado num estado de alucinação que remonta à minha primeira embriaguez quando, com as pernas imobilizadas e inválidas, eu tentava correr por uma escadaria, sempre pisando em vão, tentando fujir da imagem feminina que vinha para roubar minha inocência e bondade. Deito-me, mas me resta tão pouco da minha existência que eu existo menos do que quem já morreu. Deito-me e tenho a sensação de que nada se move, nem mesmo tudo o que é movimento, nem mesmo o avião que cruza o continente numa noitada só, nem mesmo a Terra e Sol a girar, fazendo nascer os dias, os meses, os anos e as eternidades. Deito-me e sou mais velho do que Deus, mais novo do que o espermatozoide mais lento do bando. Deito-me e meu corpo dói e lateja como se eu fosse um pedreiro ainda de pé jogando tijolos prédio acima. Deito-me e sou vazio; desfaço-me sobre a cama que não reclama e que é muito mais do que eu; de fato, tenho mais história para contar sobre a minha cama do que sobre mim: posso dizer de que madeira ela foi feita, em que ano foi fabricada e por quem, etc. O que posso dizer sobre mim? Qual é a minha história? De que matéria fui feito e por quem?

Antes essas inquietações provocassem em mim o maravilhamento que fez nascer a primeira metafísica, do que me colocassem em desencanto e desinteresse para transcender minha vida e, portanto, cria-lá. Eu me deito sem metafísica, sem sentido nem maravilha, mas somente me deito...


13/02/2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

expectativas (este título não tem necessariamente a ver com o texto abaixo)


Assim como o sol não soa a nada
a latitude e a longitude absorvem
os gritos, libertos em desertos,
que são o prazeroso destino do resultado de seleções naturais
São criados pela criação, e não emanam de nada pedra, de nada rocha, de nada ar, de nada molécula alguma.
não e-ma-nam
não surgem e não brotam. mas começam bem antes, na duvida de passar ou não a ser.
-meu sonho é gritar. e o seu?
-meu sonho é ver o dilúvio. é ser um barquinho que sobrou, que ninguém viu. não exatamente fugiu, mas estava lá. quem disse que não deveria estar? se eu pudesse, até mesmo seria o próprio barquinho. eu seria as placas de madeira, eu seria tudo o que o sustenta.
meu sonho é sentir o dilúvio. eu quero que o mar me abrace, furioso, eu quero que ele me dê um abraço de dor, eu quero a água que bate no casco e açoita a pele, uma rede que se desfaz no peito, brusca, louca, se converte em seu próprio banho, salga a terra toda, desenha a erosão. Mar, você teve a oportunidade de matar tudo, mar, pena que a pomba tem asas, ela as usa só nas horas mais inoportunas, mar, porque você não escondeu as árvores por mais tempo, por muito tempo, por todo o tempo? não haveria mais arca, não haveriam estes dedos que lamentam, não haveria fim, só haveria você, mar. o fim somos nós, meu amigo.você é um manto.
meu grito é a consagração daquilo que você poderia ter me poupado; meu grito é em sua direção, querendo ser também água infinita. Meu sonho, por fim, é ser dilúvio.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

The Wall e o mal-estar na civilização

Freud, O Mal-Estar na Civilização e o muro de Pink Floyd...



"Não é de admirar que, sob a pressão destas possibilidades de sofrimento, os indivíduos costumem moderar suas pretensões à felicidade - assim como também o princípio do prazer se converteu no mais modesto princípio da realidade, sob a influência do mundo externo -, se alguém se dar por feliz ao escapar à desgraça e sobreviver ao tormento, se em geral a tarefa de evitar o sofrer impele para segundo plano a de conquistar o prazer". 
Freud, O Mal-Estar na Civilização

"O deliberado isolamento, o afastamento dos demais é a salvaguarda mais disponível contra o sofrimento que pode resultar das relações humanas. Compreende-se: a felicidade que se poder alcançar por essa via é a da quietude. Contra o temido mundo externo o indivíduo só pode se defender por algum tipo de distanciamento, querendo realizar sozinho essa tarefa." 
Idem

"What shall we use to fill the empty spaces where we used to talk? How shall I fill the final places? How should I complete the wall...?" 
Pink Floyd, The Wall


Sempre me perguntei o que seria esse tal de muro (the wall) do Pink Floyd. Achei que tinha um significado político forte, ou alguma coisa do tipo... Não, compreende-se: o álbum é uma autoanálise do Roger Waters. O muro é uma parede de isolamento. Entender contra o que ele isola e por que, será o objetivo desse texto. Por isso, retorno ao Freud, ao Mal-Estar, ao princípio de prazer regendo a finalidade da vida, para entender essa, ouso dizer, necessidade de se isolar do mundo e das penosas relações humanas na procura pela finalidade da vida.

Geralmente, acorda-se que a finalidade da vida do ser humano é buscar a felicidade. Vivemos na busca da felicidade. Mas, é fato de que esse tema é constantemente emprestado pelas maiores empresas do gênio humano. Podemos procura-la nos livros dos filósofos, "heróis pensantes da razão", para entender a busca da felicidade; ou, podemos procura-la na "obra" de Paulo Coelho ou de qualquer auto-ajuda piegas. Não deixa de ser verdade que, por ser tão bem aceita, a ideia de felicidade chegou a ser bem banalizada em alguns casos.

A religião teve um papel muito importante para a a busca da felicidade dos homens: ela não só dava algum significado às questões enigmáticas dá vida, quanto ainda oferecia uma Providência que cuidará dessa vida e a compensará com outra melhor. É verdade que as ciências e as artes substituíram a religião, pois elas roubaram o conteúdo desta. É verdade também, que a vida é difícil, oferece muitas dores, decepções e tarefas insuportáveis. Diante disso, Freud aponta três soluções contra as dores da vida: poderosas diversões, gratificações substitutivas e substâncias inebriantes (ou, se preferir, confortavelmente entorpecentes). É preciso ver o papel da religião aqui. Tomo a ideia de que a felicidade nada mais é que a finalidade da vida do homem, e só a religião sabe responder sobre a finalidade da vida. Não vou ficar aqui desenvolvendo muito isso, lembro que Freud chama a necessidade da religião como uma necessidade infantil. Além disso, fica aqui a indicação de um estudo.

Fiquemos então, com a ideia de que a felicidade é a finalidade da vida. Tal felicidade é possível por dois caminhos: através da sensação de fortes prazeres, ou, a que mais importa pro nosso assunto, a ausência de dor ou desprazer. Não vou falar sobre a primeira. Quanto a segunda, nos faz pensar que a não-sensação de dores e desprazeres é uma felicidade. A vida do homem se desdobra por um desses caminhos. A finalidade da vida acaba por ser programada pelo princípio do prazer, onde, de um lado, está a tentativa de conseguir prazer, e de outro, de evitar o desprazer.

Ainda mais, pode-se dizer que é muito mais fácil sentir a infelicidade, ao contrário da certa dificuldade de conseguir felicidade. Podemos comprovar isso pela característica episódica da felicidade, que aparece em momentos intervalados, com curta duração. O resto do tempo, é ausência de felicidade, e é por isso também, que a felicidade surge como um momento de usufruir o contraste entre a longa e fácil infelicidade e a curta e difícil felicidade. Então, a felicidade pode ser também um momento de ausência de infelicidade. As substâncias confortavelmente entorpecentes apresentam um papel importante nisso. O álcool mesmo, não produz um efeito de prazer, mas de insensibilidade às nossas infelicidades.

 A facilidade com que a infelicidade nos atormenta se deve à pluralidade de fontes de sofrimento que nos assolam. São elas: nosso corpo, o mundo externo e nossa relação com outras pessoas. Essa última, diz Freud, é a que causa mais dor. Aqui, voltamos à primeira citação. Diante de tamanha possibilidade de sofrimento, este se torna a nossa realidade, e diante desta, nossas pretensões à felicidade diminuem. Seria irreal ter pretensões de felicidade muito ousadas. A realidade constante e insistente do sofrimento tem um peso maior em relação às nossas pretensas felicidades. Assim sendo,  quando nos livramos e nos salvamos do sofrimento, nós inibimos o sofrimento e isso se torna uma busca mais real no jogo da felicidade do que a própria conquista de prazer. A conquista de prazer passa para um segundo plano.

Diante disso, existem aqueles sujeitos (ao sofrimento e ao prazer) mais metódicos, eu diria. São aqueles que compreendem que o peso da inibição do sofrimento é maior do que o da conquista do prazer ele mesmo. A conquista de prazer é um tanto perigosa: sua busca pode ser colocada acima da cautela, como diz Freud. Isso também é um fator pelo qual se opta pela supressão do desprazer. O prazer está em regiões um pouco perigosas, onde o risco também é grande. As drogas do prazer, por exemplo, são perigosas. Aqui, vemos então a segunda citação. Esses, os mais metódicos, como eu disse, diante então de todo esse quadro na busca ambivalente do prazer, se volta para as fontes mesmas de sofrimento. Metódicos, eu digo pois, por não saberem qual a fonte mais nociva, nem conseguir isolar sofrimentos particulares, pois como vimos, na vida eles são muitos, eles então resolvem se isolar de toda fonte de um possível sofrimento.

É por essa via, que existem pessoas, como o personagem Floyd do álbum The Wall (recomendo ver o filme The Wall), que resolvem se isolar de duas das fontes de sofrimento: o mundo externo e as relações com outras pessoas. Aquela outra fonte de sofrimento, o nosso próprio corpo, suas dores e suas doenças, será coibida de outra maneira, como já citei, através da intoxicação do próprio corpo. Proponho a reflexão de pensar o papel da medicina, portanto, da própria ciência em nos livrar do sofrimento do nosso corpo. Embora eu não queira focar nesse ponto, ele aparece, por exemplo, em Comfortably Numb, uma música sobre o uso de relaxantes musculares. Tendo em vista, toda a ideia desenvolvida até aqui, é possível ver como o muro, a parede (the wall) é uma metáfora para um isolamento voluntário entre o sujeito e o mundo externo junto com as relações humanas nele contida.

Eu bem queria, mas não vou ficar analisando muito as músicas e letras do The Wall. Vou propor apenas uma pequena reflexão que sirva de um incentivo para tentar entender essa ópera rock. O álbum mesmo usa a linguagem musical, e não queria arruiná-la com essa linguagem bloguista  Mas pensemos um pouco sobre o que são os tijolos na parede (the bricks in the wall). As músicas fazem referências constantes às memórias de experiências traumatizantes do pequeno Floyd com as pessoas de sua vida, principalmente durante a infância. A morte do pai na guerra, a mãe super-protetora, os professores tiranos e, mais tarde, já na fase adulta, o divórcio, as frustrações sexuais, a fama, etc. Se pensarmos bem, cada uma dessas experiências traumatizantes, cada um desses sofrimentos provenientes de fontes externas, são tijolos da parede construída para se isolar dessas mesmas fontes. All in all it was all just bricks in the wall.

Não quero me estender mais que isso, insisto que as pessoas façam a reflexão elas mesmas. Vou deixar aqui o vídeo desse maravilhoso álbum que é o The Wall.

Boa viagem!




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A mediocridade da vida alheia


  “Na questão urbana, ao ser render a uma entidade abstrata como é o povo, os populistas não conseguem se render à variedade que é o povo.”  David Harvey

     A cada passo e a cada folha seca caída atingida, dois mundos colidem como na música. Poderia tentar evitar, mas sem saber dos resultados, rejeitar a ocasião não é uma opção nem a questão. O ser e a existência como prova da impossibilidade de neutralidade.
     Mesmo que em cada gole de cerveja barata a garganta pareça tampada, o líquido fermentado que insiste em entrar - por coerção - seria uma boa metáfora para o destino cíclico que é jogado pelo ralo toda vez que transborda o esgoto moral. Beba mais e fale menos.
     E quem poderia dizer se ele se faz valer a pena rebaixando-se à mediocridade da vida alheia, indo contra toda a literatura de auto-ajuda que prega a individualidade mágica e incoerente que faz das suas desgraças aprendizado. Como todas as outras desgraças.

     Cretino e ordinário esse destino “in disguise” metido a Deus.
     
(Cretinices a parte, submete-se por agnosticismo ou por tédio)
     A coação interna é parte do fato social pré-determinado de que se acostuma ao gosto amargo da cerveja. E que amargura é uma ótima metáfora para a morte, principalmente quando ela boia no esgoto até o mar. Porque a morte provocada o impede de ir para o céu.
(Crendices a parte, fica no ar o paradoxo soprado em forma de folhas secas, solas de sapato e eufemismos da vida). 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

despadronagem fragmento


E observa o urubu de seu pedestal, poste de iluminação que levou consigo algumas estrelas a mais, a cidade que está prestes a governar.
Hoje a cidade continuou escorrendo pela escassa mata ciliar e renasceu de sua autofagia diária através dos desenhos e gritos estampados nos muros.
Despadronagem em fragmentos. Tudo o que pode ser assistido coberto pelo vidro do carro e tudo o que se julga em frações de segundos passa pelos olhos, diante de todo o tempo.
A primeira pessoa chama de novo: “Você um dia poderá saber quantos passageiros sorriram pra você enquanto carregava em seu corpo a cegueira?”, e a conclusão não se dá no final.
Ainda posso quedar aqui fugida?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Príncipes


Cabelos longos, barba, roupas escuras, pele sombreada, coroa de pano e dormitório de cimento. 


Até as quatro primeiras descrições seria possível enganar quem lê que eu estava de fato descrevendo um príncipe ou um príncipe encantado qualquer, porém nada é mais obscuro para quem lê que se imaginar efetivamente vivendo sem teto, em um chão de cimento, sem ter para onde remotamente correr.

A minha problemática é que hoje o conceito de príncipe está um pouco corroído. Existem os príncipes clássicos como o da Cinderela ou os loiros naturais das fantasias de Idade Média, porém existem também os príncipes artificialmente criados: programas de computador alteram as fotos dos garotos tanto quanto das garotas, garotas sonham antes com palácios que com os príncipes, as mídias em geral ditam a tendência do príncipe (ou da rainha) que vai encontrar superficialmente seu coração.

Então, com essa versatilidade do conceito do que é um príncipe hoje em dia e a falta de ideologia inserida neste conceito - ou melhor dizendo, na posição de “neutralidade” não-neutra das coisas -, eu vejo os moradores de rua como mais uma espécie de príncipes distorcidos da atualidade.

Ao invés de donzelas em perigo, eles se salvam. Possuem amigos fiéis, os vira-latas. Alguns usam capas, ditam moda com os rasgos do desgaste em suas roupas, tem castelos enormes, porém sem coberturas permanentes: as ruas. A maior divergência está na falta completa do luxo e talvez nos vícios - não generalizando, logo que eu acredito que o príncipe da Cinderela deveria gostar de água ardente.
Existem todos os tipos de moradores de rua, existem até aqueles que possuem, poderiam possuir ou nunca poderão possuir uma casa. A rua é a comunidade deles.
Por fim, falta um tijolo para desconstruir totalmente a imagem dos príncipes idealizados: os reais são reconhecidos pela indiferença.

Posso estar atingindo o máximo do clichê ao dizer isso, mas poucos são os príncipes, os verdadeiros cavalheiros e cavaleiros e heróis das moças e moços em perigos que são reconhecidos - é por isso, que eu não me sinto cega em colocar os moradores de rua como uma mais nova modalidade de príncipes da atualidade.

Entram nessa classificação, todos aqueles que morrem por qualquer ideal (um pão, por exemplo), e não sabemos o por quê, ou melhor, recebemos informações longínquas daquilo que deveria ser a realidade na história contada de quem morreu e não pode mais contar. É questionável: afinal, quem eu quero defender?

Meu último argumento: como símbolos da indiferença diária os moradores de rua são príncipes que de alguma forma denunciam mais uma vez para todos os cidadãos, que escoam de suas esferas privadas para as públicas, as desigualdades sociais do mundo; qual será então o acréscimo de consciência que trouxeram os famosos príncipes colírios de classe (econômica) A de uma revista sem capricho de existir para quase toda uma geração de garotas (e garotos) o ápice da superficialidade e aparência do que é o amor e a esfera pública hoje em dia?

“Faltaram os olhos azuis, mas isso é genético. Os castanhos são igualmente bonitos.”